Cultura organizacional e falta de tempo bloqueiam a inovação

Numa enquete publicada no Portal IT4CIO, quase 32% dos participantes disseram que o maior empecilho para impulsionar a inovação no setor de TI é a cultura organizacional. Na sequência, 26% afirmaram que o principal motivo é, na verdade, ter um orçamento reduzido. Em continuidade, 15% alegaram que a dificuldade é trabalhar com gerenciamento de risco, enquanto 14% acreditam que a falta de mão de obra influencia mais que os outros fatores e 13% esperam obter melhores parcerias.

Consultor em TI e diretor do MBA60, Mauro Peres reintera a escolha da maioria. Para ele, boa parte da dificuldade em se obter inovação deriva da cultura da empresa, isto é, de como ela é medida, premiada, de questões como indicadores e também da bonificação. Tudo isso pode ser um impeditivo ou um impulsionador da inovação.

No entanto, o especialista reforça que é preciso separar uma empresa multinacional de uma nacional. “Numa empresa multinacional, os escritórios brasileiros não têm tanto espaço para inovar, são mais de execução, pois os desenvolvimentos geralmente são feitos fora. Pensando numa empresa brasileira, a gente tem impeditivos inclusive de financiamento e crédito. Por mais que haja créditos subsidiados, é caro investir em projetos de inovação. Nas empresas grandes, as estruturas premiam, ou melhor, punem o risco: o executivo muitas vezes não ganha a bonificação quando o trabalho não dá certo”, explica.

Daniel Scherer, CIO da Sabemi, concorda que cultura organizacional pode ser um entrave. No entanto, na opinião do executivo, a principal dificuldade de inovar é a falta de tempo, não só na área de tecnologia – normalmente cobrada pelo progresso –, mas da empresa como um todo. “Se você não tiver um negócio envolvido, se não tiver todos os usuários envolvidos, é muito difícil conseguir fazer inovação. É preciso todo o ecossistema trabalhando, pensando em criar soluções que gerem valor. A área de TI gosta muito de inventar, mas ela tem que inovar. Ou seja, trazer coisas que realmente resolvam os problemas.”

O CIO enfatiza que a empresa tem que ter tempo pra isso. De acordo com ele, não adianta fazer inovação no dia a dia sem tirar um momento para debater. É importante incentivar conversas que ajudem a inovar, e elas devem ser descontraídas, às vezes, fora do ambiente de trabalho. Com isso, as pessoas saem do foco operacional e começam a pensar de uma forma diferente, trazendo novas sugestões.

Governança pode atrapalhar?

Quanto mais estruturada e organizada é uma empresa, quanto mais riscos ela corre, mais controle é preciso para não se ter problemas com regulamentação e danos à imagem. Isso pode atrapalhar na hora da inovação? Peres comenta que a governança é necessária, ainda mais no mundo de litígio em que vivemos, porém o controle é um tanto avesso à inovação e pode inibi-la. Para ele, inovar geralmente está atrelado a startups, que são empresas que não têm controles bem definidos, contudo há as que conseguem desenvolver esse processo criativo. “Começou muito com a cultura da 3M. Se não me engano, os funcionários têm 15% do tempo deles pra gastar com projetos inovadores. Então, você vê que é a cultura. Mesmo com uma governança rígida, é possível permitir aos funcionários a criação, eles são premiados ou têm a liberdade para fazer isso”, afirmou.

Scherer alega que governança e inovação são processos distintos. A primeira é importante para manter-se em operação. Sem uma governança forte, acaba-se perdendo muito tempo cuidando do operacional. Com uma, o processo é bem definido e até meio automático. “Não tem que ter uma preocupação contínua em cima disso. Pode ser uma utilização, mas não é o foco. E, sim, acho que uma governança sempre ajuda a ter tempo para pensar em inovação, o que não pode é achar que só melhorar processo é inovar”, diz. O CIO argumenta que o sucesso depende de pensar diferente. “Tivemos um caso agora que, pra uma solução, trabalhamos em cima da automatização dos nossos processos como uma grande inovação. Quando a gente botou isso em produção, viu que o resultado foi pequeno. Não pensamos diferente, pensamos a mesma coisa automatizada”, conta.

Caminhos para inovação

Segundo Peres, quando pensamos em inovação, logo imaginamos um projeto que vai revolucionar o mundo, o que poucas empresas conseguem. Ele vê a possibilidade das empresas incentivarem a inovação departamental, estimulando que gerentes de departamentos inovem dentro da área que têm autonomia para mudar. “Conheço empresa de tecnologia bem grande na qual um gerente, para pedir um Excel ao funcionário, tem que passar por dez processos. Como é que você vai imaginar inovação se não consegue nem pedir um Excel?”, disse.

O consultor ressalta que inovar não é só criar coisas novas, mas fazer com menos custo ou ser mais eficiente. “Por que eu, como gerente, não posso inovar o meu departamento? Às vezes, isso tem sentido. É mais fácil pedir para inovar dentro do seu departamento e depois pensar numa coisa maior”, sustenta.

 

Fonte: IT4CIO