As gerações e o ritmo acelerado

Por Emília Magnan*

As gerações e o ritmo aceleradoTem se falado muito nos desafios que a nova geração representa ao entrar no mercado de trabalho. Não à toa, há uns dias tive a oportunidade de entender um pouco mais sobre esse público quando estive em contato com jovens entre 18 e 22 anos. Mesmo novos, ao serem questionados sobre hobbies e interesses, choveram informações sobre atividades que pareceram  estar  sendo levadas realmente a sério: viagem, culinária, fotografia, cinema, consultoria de rede social, informática e outros – eram sim, muitos interesses. A primeira ideia que me passou pela cabeça foi que essa história de ir atrás de fazer o que traz felicidade para o sujeito é mesmo verdade.

Logo depois, me dei conta de mais um fator importante no perfil desse pessoal: todo  aprendizado que eles adquirem nessas atividades extras irão compor o profissional seu perfil profissional. Através dos hobbies, quase nada amadores, eles começam a se conectar com pessoas, buscar informações, agirem mais naturalmente frente ao desconhecido e terem, portanto, uma facilidade grande de transitar em diferentes ambientes. Ou seja, conviver em diferentes lugares é absolutamente normal, atípico é se restringir a circular nos espaços fechados da casa, escola, empresa, e casa novamente.

Nesse momento da reflexão, a nostalgia bateu: comecei a lembrar como eram as tardes pré-faculdade, “no tempo” do Ensino Médio. E usar a expressão “no tempo” aqui já indica que alguma coisa mudou. Essa expressão foi herdada da geração dos meus pais quando queriam comparar a geração deles com a minha. Agora parece que chegou minha vez, usar a expressão para pensar sobre hábitos e rotinas desse pessoal que está chegando agora no mercado. Naturalmente que os estímulos que a nova geração enquanto adolescentes vivem são  diferentes daqueles que qualquer outra geração tenha recebido. Alguém aí já se peguntou como seria ser adolescente em um contexto onde locadoras de vídeo, lojas de CDs, internet discada e apostilas perdem sentido e são substituídos por uma conexão e interatividade em todo lugar, o tempo todo?

E aí que veio o choque maior nesse devaneio: grande parte dos meus colegas de geração fez piada pela quantidade de vezes que assistiu “A Lagoa Azul” na Sessão da Tarde, sofreu quando teve de abrir mão das horas do dia passadas dormindo e ainda programou muitas aventuras para as férias e, depois do recesso escolar, voltou sem muita novidade. Me dei conta do quanto esse pessoal que hoje entra na fase adulta leva a sério o lazer, e o lazer muitas vezes está relacionado com conectividade. E eles estão conectados com as coisas não só quando estão na frente de um computador ou dispositivo, mas enquanto estão em qualquer lugar. As informações são uma constante, e o que me parece admirável é a capacidade desses jovens de estar atento a toda essa quantidade de dados.

Voltando aos dias de hoje, passaram algumas semanas desse fato e eu tinha esquecido essa reflexão, mas aí uma amiga comentou comigo sobre um livro¹ que estava me indicando (de autoria do Augusto Cury). Dizia ela que o livro mencionava a  “Síndrome do Pensamento Acelerado” e que está se investigando que excesso de TV, smartphone, trabalho, informações, provocações e inspirações têm um lado prejudicial. Estamos construindo pensamentos de forma muito acelerada devido à hiper estimulação o tempo todo, por tudo! O pensamento que me veio na hora foi: ufa, talvez não tenha perdido o meu tempo quando mais nova. Dormir de tarde pode fazer bem à saúde, afinal!

Entendo que uma coisa não leva à outra, exclusivamente. Dormir à tarde não é sinônimo de saúde, também buscar informações e estar conectado não causa a Síndrome do Pensamento Acelerado. Tentando entender um pouco mais sobre esse estado vinculado ao estilo de vida que estamos adotando, verifiquei que ela ainda não é uma doença categorizado do DSM – V, o livro que serve para este fim, indicar o que é e o que não é doença. Porém, os especialistas estão começando a identificá-la e associá-la ao Transtorno de Ansiedade, esse sim um velho conhecido (quem tiver interesse, segue uma sugestão de link para uma leitura mais específica). Como ainda não se tem muita informação sobre o transtorno, não temos como indicar quem são os mais afetados por essa doença: os jovens, que nasceram imersos nesse mundo de estímulos, ou os mais antigos, que justamente não estão familiarizados com esse ritmo e estão tendo que aprender a lidar com ele.

Acho que vale nos questionarmos quanto temos dedicado de tempo a lidar com o ritmo dos grandes centros, com o excesso de estimulação – aquele dos adultos, jovens e crianças também, com o excesso de atividade, o excesso de informações e a ansiedade de dar conta das demandas do dia.

E como anda nosso envolvimento com o lado positivo da vida, quanto estamos desfrutando de momentos de contemplação, gratidão, prazer, relacionamentos positivos ou de comemoração das nossas conquistas.

¹Livro: Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século

Emília_Magnan*Emília Magnan é graduada em Psicologia pela UFCSPA e está se especializando em Desenvolvimento Humano de Gestores pela FGVPesquisadora voluntária na área de Psicologia Organizacional e do Trabalho (NEPOT UFCSPA) e Desenvolvimento de Carreira (GEDC PUCRS). Atua no apoio às ações do RH da ilegra e também na elaboração de projetos relacionados a cultura e ao desenvolvimento de pessoas.

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