O despertar dos Wearables

Por Vinícius Hoeppers* 

Sempre que os wearables entram em pauta, é comum que os primeiros pensamentos que vêm em nossas mentes sejam aqueles relacionados ao mercado fitness. Foi assim quando a Nike lançou no fim dos anos 2000 os dispositivos que se conectavam com seus tênis de corrida e reprodutores de música e que percorre a realidade de muitas outras marcas consecutivamente. Desde então, vimos o surgimento das smartbands, o nascer e a extinção do Google Glass e a então febre do momento: os smartwatches.

À medida em que começa o cruzamento entre a tecnologia, os dispositivos móveis e o mundo da moda é possível perceber que na maioria das vezes esses mercados ainda não conseguiram encontrar um caminho em conjunto a ser seguido. Por outro lado, isso não tira o mérito do que tem surgido na industria até então. O Gartner já prevê em seus relatórios o crescimento do mercado de wearables em um total de 17 bilhões de dólares até 2019. Um aspecto a ser levado em consideração é a importância desses segmentos convergirem de forma orgânica em iniciativas que tangem o desenvolvimento de wearables com o intuito de criar objetos que sejam aderentes às vestimentas e acessórios dos usuários sem parecerem meros dispositivos acoplados em seus corpos.

Sony-Smartband
Sony Smartband

Para isso, é necessário ir muito além do que somente colocar um Apple Watch na capa da Vogue chinesa ou Diane Von Furstenberg  fazer sua coleção ready-to-wear na semana de moda de Nova Iorque (2012) com modelos utilizando Google Glasses com o objetivo de fomentar a adesão desses dispositivos como objetos de desejo. É necessário repensar o propósito de tecnologias wearables no processo de desenvolvimento do produto e entender que à medida em que esses objetos entram em contato com o ramo da moda, o benefício tecnológico precisa caminhar em conjunto com o benefício de uso de moda. Certamente que questões técnicas devem ser levadas em consideração, com o intuito de sempre tornar a experiência do usuário mais intuitiva e a mais diferenciada possível. E a falta desses requisitos técnicos ficam claros nos produtos disponíveis no mercado atualmente; existem algumas limitações básicas em determinados produtos dessa categoria, como é o caso de dispositivos que obrigam o uso de um segundo dispositivo para validar o uso. Essa característica, por sua vez, pode ser um dos motivos que leva as altas taxas de abandono de produtos wearables pelos usuários, como apresentou uma pesquisa recente da Endeavour Partners.

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Vogue Chinha 2014                                                     Diane Von Furstenberg Primavera 2013

Acredito que as tecnologias wearables ainda não tenham sido fortemente incorporadas como um acessório de estilo e identidade de consumo pelo fato dos dispositivos serem sempre pensados como meros… dispositivos. Em sua grande maioria, não existe uma integração fluída entre aquilo que está sendo criado nas temporadas de moda e as recentes inovações tecnológicas. A moda como termo técnico – mecanismo de imitação e de igualador social¹ – presume que um elemento (físico ou intangível) seja vislumbrado massivamente e quando essa terminologia é incorporada à roupa ou assessório, deve-se pensar em objetos que ofereçam aos usuários oportunidades de expressarem sua personalidade e identidade. E são essas visões que empresas de tecnologia wearable talvez acabem não avaliando em seu processo criativo. Um caminho passível a ser tomado nessas circunstâncias pode ser o direcionamento para vertentes um pouco distantes do próprio dispositivo, como é o caso da fabricação de tecidos inteligentes ou até mesmo acessórios que contenham tecnologia em sua base.

Algumas marcas têm percebido caminhos alternativos como forma de integrar neste mercado e têm conseguido oferecer opções que – ao ver do consumidor – são produtos com conceito substancial de moda, mas que ao mesmo tempo incorporam em seus interiores uma estratégia tecnológica que oferece benefícios ao usuário. Já podemos ver projetos de roupas que mudam de cor, jaquetas que carregam dispositivos móveis, que ajustam a temperatura do corpo e até mesmo jeans sensível ao toque que responde comandos de um smartphone. A Rauph Lauren, por exemplo, lá em 2014, desenvolveu uma camiseta especialmente para o torneio do US Open que, através de sensores na malha do tecido, era possível de medir a frequência cardíaca do usuário, taxas de respiração, respiração profunda, passos e as calorias queimadas e visualizar todas as informações coletadas em um aplicativo para o iPhone.

Vale a pena parar, pensar e quem sabe mudar um pouco o rumo das coisas. Para um wearable realmente se tornar moda e objeto de desejo, é necessário pensar em outras formas de incorporar a tecnologia em elementos que as pessoas vestem – sejam roupas ou assessórios. Fugir do ambiente fitness pode ser um bom começo, até porque o pulso talvez possa não ser o local mais indicado para se prender diversos sensores, botões e telas, não é mesmo? Por isso, para que wearables fiquem populares é preciso desenvolvê-los de forma que tenham estilo, pareçam vestimentas ou assessórios normais e que façam mais do que uma simples contagem de passos.

¹ George Simmel: Fashion – The American Journal of Sociology, 1957

Vinícius Hoeppers*Vinicius Hoeppers é formado em Publicidade com ênfase em Marketing pela ESPM-Sul. É Analista de Marketing na ilegra e estuda questões ligadas ao consumo e comportamento do consumidor.

 

 

 

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